Saímos de Paris em direção a Oslo, capital da Noruega. Após umas 3 horas de viajem chegamos ao país Viking com um pouco mais de 5 milhões de habitantes e sua moeda chamada Coroa Norueguesa que possui um câmbio aproximado de 7 coroas por cada euro. Oslo é a capital desde 1814 e é considerada a capital com maior quantidade de espaços verdes do mundo, aproximadamente 75% da área da cidade é zona de preservação ambiental o que faz com que os preços de imóveis sejam um dos mais altos da Europa, a alternativa é aterrar uma parte do antigo porto e ali construir edifícios modernos e obviamente caros.
No dia seguinte, levantamos às 6h da manhã e pé na estrada para completarmos uns 500km rumo a Älesund região central do país e onde existe o maior e mais lindo lago da Noruega o lago Mjosa um verdadeiro cartão postal. E nosso primeiro contato com a comida norueguesa.
Na Noruega acorda-se cedo, come-se muito no café da manhã e o cardápio é digamos diferente com peixes, muito salmão, bacalhau e truta tudo cru ou defumado, muita ova de peixe, pepino, tomate, pimentão, ervilha com molho, bacon e linguiça de 2 a 3 tipos com bastante pimenta, embutidos a base de carne e sangue de porco, vaca mas também de rena e alce ;ovos fritos, cozidos, fervidos e em forma de omelete, queijos variados principalmente de cabra e o mais cobiçado é o queijo doce de cabra que para alguns não desce bem mas tem um sabor digamos peculiar mas saboroso. Além de iogurtes e leite, muito leite, os noruegueses são conhecidos como o povo que mais bebe leite no mundo são aproximadamente 2 litros por habitante por dia! Sucos sempre maçã e laranja, o café é servido em caneca alta completamente sem açúcar , o mais quente que já vimos na vida parece estar a uns 200 graus e o sabor é fraco lembrando ao de um chá acompanhado de pães em muita variedade e quantidade. Açúcar e doces são raríssimos mesmo as numerosas geléias são naturais e sem açúcar. Costuma-se comer muito de manhã e apenas um sanduíche no período do almoço e comer novamente muito bem ao jantar que na Noruega ocorre por volta das 6h da tarde.
Meu primeiro prato norueguês foi almôndegas de carne de rena com purê de batata e ervilhas ,acompanhada de uma boa taça de vinho tinto. Valeu a pena!
Em Älesund vamos para um cruzeiro em Geiranger um fiorde ( grande extensão de mar que entra por grandes e altíssimos braços de montanhas) este fiorde foi declarado patrimônio da humanidade em 2008. Durante o passeio encontramos várias cascatas com mais de 60 a 80 metros de altura. Em seguida pé na estrada em direção ao nosso primeiro Glacial ( região completamente coberta por gelo que nunca derrete e existe desde os tempos glaciais a milhões de anos).
Glacial de briksdal onde o gelo parece ser completamente azul , a imagem é verdadeiramente indescritível , pois estamos à frente de um glacial de milhões de anos; mas uma certa tristeza paira no ar. Os noruegueses mais do que ninguém sabem o que provoca o aquecimento global. Uma placa indicativa mostra onde era a localização deste Glacial e outra placa indica onde se encontrava este Glacial já em 1920 e finalmente observamos o início do Glacial hoje. Espantosamente em apenas 100 anos o Glacial derretou o mesmo que havia derretido em 1000 anos! Acredita-se que em 2050 não haverá mais Glaciais em todos os Alpes suíços e poucos restarão na Noruega. Neste momento entendemos a famosa frase dos noruegueses que sempre dizem: não existe melhor lugar para estar do que em casa e a casa é a Noruega o país de maior riqueza natural glacial.
Saímos deste glacial meio a força, pois a vontade é de permanecer sentado a sua frente, por longas horas apreciando e também meditando sobre o que estamos fazendo com o nosso planeta. Uma coisa é falar e ouvir falar, é ver em revistas e televisão outra coisa é estar à frente de um verdadeiro Glacial que encontra-se aqui a milhões de anos e nós iremos destruí-lo por completo em mais uns 80 anos. Olhando ao redor os rostos de todos que aqui estão é o mesmo, de fascinação e incredulidade ao mesmo tempo. As pessoas conforme vão se afastando vão dando alguns passos e virando a cabeça para trás para uma última olhada no Glacial de Briksdal e repetem mais alguns passos e outra olhada para trás. Ficamos um pouco afastados observando as reações de todos, os passos e as viradas de cabeça. Enquanto outros que ainda não se deram conta de onde estão fazem força para as últimas fotos e talvez só depois irão perceber que tiraram muitas fotos mas não viram o Glacial e talvez nunca mais venham vê-lo de novo.
O murmurinho das pessoas é estranho inglês, norueguês, espanhol, alemão e francês tudo misturado mas em nossos ouvidos mais do que abertos ao novo tudo fica combinando como uma música exótica e a letra da música é sempre a mesma: não acredito no que vi ou não consegui uma boa foto mas qual o nome daqui mesmo ? Será que vai nevar? E outros, puxa da vontade de chorar...
A temperatura permanece amena para um verão norueguês aproximadamente 14 graus com um declínio acentuado com o passar das horas, mas não se nota o relógio andar, pois o sol se põe por volta das 2 horas da manhã e nasce novamente por volta das 6 horas.
Paramos em um hotel na beira da estrada na região dos fiordes em uma cidade pequenina que não possui mais de 2000 habitantes chamada Skei. Malas no quarto e hora de investigar os arredores para depois jantarmos. Logo à frente do hotel mais um cartão postal daqueles que sempre se pede para beliscar para termos certeza de não estarmos sonhando, um lago de águas calmas e límpidas rodeado de montanhas com picos de gelo que são refletidos nas águas do lago como um grande espelho, as poucas pessoas que ali se encontram caminham ao redor do lago levando consigo apenas seus pensamentos e claro as maquinas fotográficas.
O que estarão pensando? Como será morar neste lugar paradisíaco, mas que ao chegar o inverno pode permanecer 6 meses sem passar viva alma ? E o lago? Nos, informam, que o lago fica completamente congelado e transforma-se em uma grande arena de patinação. Do outro lado da avenida que passa ao lado do lago uma loja de souvenir aproveita o verão de apenas 3 meses ao ano para faturar o que puder pois logo a neve voltará e as pessoas irão retornar as suas casa bem longe dali. Um grupo de espanhóis faz suas compras aproveitando que uma das vendedoras também é espanhola, aproveito para ouvir um pouco o diálogo:
_ Então, o que você faz aqui?
_ Bem vim mudar de ares.
_E é bom morar aqui? No verão é ótimo, mas no inverno é difícil! E ele dura 8 meses por ano.
_Então por que não volta?
_não sei. Faz algum tempo que estou pensando em voltar.
_Quanto tempo?
_Uns 8 anos...
_Você então já fala norueguês, certo?
_Ainda não, me comunico com a dona da loja em inglês mas se resolver ficar vou aprender o idioma.
Voltamos ao hotel e o restaurante está lotado de grupos de turistas , sentamos com o grupo de espanhóis e logo o caos da comida começa, vemos uma verdadeira batalha épica por comida, todos empurrando , passando na frente, falando alto, a impressão que se tem é que só existe um pão para centenas de pessoas quando a realidade é exatamente oposta. Neste mar de ruídos entra mais um grupo de turistas franceses e a guerra velada é decretada. De um lado e outro comentários sarcásticos com risadas e gestos provocativos e nós no meio. Ouvindo e entendendo ambos os lados. Mas ao mesmo tempo devo confessar ser interessantíssimo ver como as pessoas em grupo passam a se comportar como adolescentes querendo arrumar briga, a impressão que se tem é que estamos no meio de duas torcidas rivais de futebol o que torna o jantar mais divertido, mais uma experiência diferente em ver seres humanos e seus comportamentos. Eu deixo a minha marca, ao servir-me de sobremesa um mousse que até hoje não sei ao certo qual era o seu sabor, pois todos os mousses na Noruega são iguais em sabor só mudando a cor. Vou pegar meu grande pedaço de mousse o qual teima em não sair da colher uma mexidinha aqui e outra lá e ele nem se mexe. Então uma sacudida aqui e outra lá e o teimoso mousse não se mexe; ainda olho para o lado a mesa dos franceses riem sem parar apontando pra mim que como estávamos na mesa dos espanhóis então ganhamos a sua nacionalidade naquele jantar. Resolvo ter uma atitude mais firme com o meu mousse e uma sacudida bem mais enérgica é o suficiente para que ele descole da colher rumo ao teto, de meia volta e caia como um torpedo despedaçando-se entre o chão e o meu tênis novinho em folha. È a senha para quase matar toda a mesa de franceses de indigestão de tanto rir. Não me dou por vencido, pego outro pedaço de mousse que finalmente resolve vir ao meu prato e para não deixar dúvidas nessa guerra de nacionalidades chamo o garçom e mostro o que provoquei mostrando também meu pé que carrega um bom pedaço de doce e agradeço ao prestativo garçom em alto e bom espanhol, ao sair tenho a impressão que serei aplaudido pela mesa de franceses que até agora não conseguiram se recompor e de apontar para a nossa mesa da Espanha.
No meio dessa batalha medieval por comida algo nos chama a atenção, a calma e passividade norueguesa. Desde o momento em que chegamos já estava instalada a guerra, mas até agora nada parece interromper seu modo de vida. Se faltar um pouco de batata aqui, ok! Gritando ou não, falando uma vez ou duzentas vezes, a batata virá quando estiver pronta e se acabar, a batata, substituiremos por outro prato qualquer, sem pressa, estresse ou aborrecimento. Afinal das contas estamos no verão e ele só dura três meses por ano então devemos aproveitar ao máximo, pois se fizermos o tempo correr o inverno chegará mais cedo! Tentar apressar a natureza é coisa que os noruegueses sabem como ninguém que sempre trará mais prejuízos do que ganhos.
O restante do jantar corre bem, porém pedir uma bebida fica impossível com tantas pessoas falando ao mesmo tempo então nos contentamos com um belo jarro de água. Afinal de contas, uma das características da Noruega é ter a melhor água do mundo diretamente dos glaciares. A primeira coisa que nos ensinam é não comprar água, mas tomar a água da torneira, pois é maravilhosa, o que realmente pode ser comprovado. Toda a Noruega toma água da torneira a não ser que se deseje experimentar uma água engarrafada considerada à água mais leve do mundo vinda do derretimento dos glaciares do extremo norte. Para experimentar uma água dessas é necessário estar com muita sede, uma garrafa pode sair por até uns 20 euros, algo em torno de 50 reais ( no cambio de hoje). Em termos de preços, o leite é o mais barato depois a cerveja e finalmente a água.
Na manhã seguinte pé na estrada novamente, uma última olhada para o lago de Skei e uma foto do amanhecer refletido nas montanhas geladas.
Vamos para um novo cruzeiro agora pelo fiorde de Sognefjord, chamado pelos noruegueses como o fiorde dos sonhos, é o segundo maior do mundo só perdendo para o fiorde de Scoresby sund na Groelândia.
Nosso fiorde possui mais de 200 quilômetros de comprimento, suas montanhas alcançam mais de 2000 metros de altura e sua profundidade é superior aos 1300 metros. Você já se sentiu uma formiga em uma caixa de fósforo? Pois bem é assim que nos sentimos ao começar a navegar neste fiorde. Aqueles que acreditam em Deus têm total percepção da grandeza da natureza criada por ele e da fragilidade humana frente a esta magnitude divina e aqueles que não acreditam em Deus terão a certeza de que na natureza algo muito material mas dissimulado ocorre por aqui. É impossível não sentir uma aura de vibração diferente. Imediatamente olho ao meu redor e vejo absolutamente todos olhando de boca aberta tento buscar a maquina fotográfica para fotografar esta dezena de bocas que parecem estar frente ao seu dentista mas antes preciso controlar a minha própria boca que resseca com o vento gelado que entra dentro dela. Mais um cartão postal! Conforme o barco passa as gaivotas nos acompanham esperando algo ou apenas fazendo pose para as fotos e as cabras das margens acompanham o barco que às vezes para e joga guloseimas para elas que já aprenderam que em todo o verão os barcos trazem comidas fresquinhas e diferentes, e mais fotos das cabras norueguesas. O vento polar é tão intenso que decidimos entrar para um café quente, pois lá fora a sensação térmica é de aproximadamente zero grau.
Então, mais uma demonstração da vida norueguesa, vou em busca de um café e não encontro ninguém apenas a máquina de café expresso. De repente passa um marinheiro, aproveito para perguntar como posso comprar um café e ele em total simplicidade norueguesa me explica que eu posso entrar na cozinha, servir-me a vontade e depois abrir a gaveta do dinheiro e colocar o valor correspondente lá retirando o troco se for necessário. Tão rápido quanto ele veio se vai e lá vou eu, me sirvo, abro a gaveta e deixo o dinheiro.
Ao sair uma multidão me faz a mesma pergunta como conseguir um café quente. Passo as mesmas explicações que me foram dadas e vejo a mesma cena no rosto das pessoas que eu mesmo havia feito a minutos atrás. Confiança nas pessoas é coisa que existe por aqui e espero que continue existindo para sempre.
Deixamos o fiorde que como o seu nome diz é um verdadeiro sonho. A melhor parte é que é um sonho real e pode ser visto por qualquer pessoa. Pegamos a estrada para irmos em direção a Bergen, uma cidade viking, considerada a segunda maior cidade da Noruega com 250 mil habitantes.
Chegando em Bergen encontramos um chileno doido que será nosso guia. Informa que já mora em Bergen a 18 anos e é músico da orquestra filarmônica da cidade. Bergen é a capital cultural da Noruega. Todos os festivais de música e rock ocorrem aqui. Mas não é este o motivo que fazem de Bergen uma cidade conhecida mundialmente e sim o seu recorde mundial em ser a cidade onde mais chove no mundo, aproximadamente 215 dias por ano chove. Para se ter uma idéia existem máquinas automáticas nas ruas que basta colocar algumas moedas e retirar o seu guarda chuva novinho. Chegamos a Bergen sem chuva ! E toda a população nas ruas aproveitando o sol, deitados nas praças, calçadas, em fim em todos os lugares possíveis.
Um passeio pelo porto de Bergen mostra de onde os Vikings saiam em busca de conquistas sobre a Europa, é também no porto que existe a feira de Bergen onde é possível experimentar o salmão selvagem e a carne de baleia, crua ou defumada, além do bacalhau fresco e com cabeça!
A carne de baleia possui uma coloração forte, pergunto sobre o sabor e me informam que a carne é uma mistura entre o fígado de boi com gosto forte de peixe. Nesse momento passo a vez de experimentar para o Bruno meu parceiro de viajem e pesquisa.
Ele experimenta, diz ser bom, mas não pega o segundo pedaço! Resolvemos comer em um restaurante próximo ao porto e a calma norueguesa se faz presente onde nosso prato leva mais de uma hora para ficar pronto, tudo bem, vamos aguardando com uma boa cerveja norueguesa. A surpresa é na hora de pagar, o valor corresponde a uns 4 dias de almoço em um outro país europeu e então mais uma característica da Noruega.
A Noruega é considerada um dos países mais caros do mundo!
Deixamos Bergen fazendo contas e vamos em direção a Stavanger. No caminho passamos pela cidade de Stranda a cidade que eu mais desejava conhecer, uma cidadezinha com pouco mais de 2500 habitantes que foi considerada em 2009 e 2010 a cidade de melhor qualidade de vida do mundo! Stranda chama a atenção por não possuir absolutamente nada que chame a atenção. Porém todos os indicadores da ONU e da UNESCO colocam esta cidade no topo da lista em qualidade de vida e satisfação perante a vida. O desemprego é zero, a média salarial acompanha a média do país de aproximadamente trinta mil euros anuais, o que chama a atenção é que a média da população trabalha mais do que o restante do país, onde a grande maioria trabalha em indústria de móveis, o luxo não existe por aqui, praticamente todos se conhecem, poucos vão à igreja e a maioria assim como em toda a Noruega possui mais de uma casa, uma na cidade e outra no campo apesar de Stranda ser no meio de bosques selvagens. A Expectativa de vida é uma das mais altas, violência, só ocorreu uma morte sem explicação, uns dois anos atrás e a dependência de álcool e drogas é zero assim como em quase todo o país, pois a venda e consumo de álcool nas ruas é proibido na Noruega, alguns locais só podem vender bebidas alcoólicas até as seis horas da tarde e o único local que vende bebidas chama-se Vin Monopolity e pertence ao governo, funciona apenas de segunda a sexta feira até as seis horas da tarde, portanto quem deseja beber algo deve comprar e beber em casa. Stranda nos passa uma enorme lição, que a qualidade de vida não está ligada ao excesso de dinheiro e luxo, muito menos em trabalhar pouco mas em estar em harmonia com os ritmos da vida, respeitando os limites e não exagerando em nada inclusive no ócio. Saímos de Stranda e eu não parava de fazer minhas anotações, vamos conversando e debatendo até entrarmos em Stavanger a quarta maior cidade da Noruega. É a cidade do petróleo. Passamos por mais um barco e vários tuneis subterrâneos e finalmente o centro da cidade. Uma cidade moderna que mantém a sua parte medieval formada por casas de madeira todas na cor branca. Paramos em um mercado para fazer algumas compras, especialmente comida, pois resolvemos fazer algumas trilhas ao redor dos fiordes e montanhas nevadas. E pra variar mais uma demonstração da confiança que existe nesse país. Em qualquer supermercado pode-se entrar com sacolas e bolsas, sem ninguém solicitar que elas sejam guardadas e na porta não existe nenhum sistema de alarme, afinal de contas ninguém sairia sem pagar algum produto qualquer.
Chegamos ao hotel na hora do jantar, imediatamente vamos à comida acompanhada de uma boa taça de vinho tinto. Ao final do jantar tivemos que procurar um funcionário do local e informar que consumimos uma taça de vinho cada um, então com total simplicidade ele nos informa que se desejarmos pagar devemos nos encaminhar ao caixa do outro lado e lá informar qual foi o nosso consumo ou se desejarmos podemos deixar para pagar em outro momento qualquer, coisas de Noruega! Um banho quente e cama. A noite, que não anoitece, passa mais rápido do que gostaríamos e no dia seguinte as 6 horas da manhã saímos em direção do fiorde de Lyse considerado um dos melhores cartões postais do Noruega, resolvemos descer do barco e realizar uma caminhada de 5 horas até Prekestolen, um púlpito de pedra a 800 metros de altura . Uma caminhada pesada que absolutamente vale a pena.
E mais uma característica da Noruega: a população norueguesa tem como hábito caminhar na natureza, um dia perfeito para eles é aquele onde se caminha o dia inteiro sem encontrar ninguém pela frente. A subida para Prekestolen é árdua e na parte mais intensa leva-se aproximadamente 1 hora e meia, o pior é a descida, pois são pedras atrás de pedras e mesmo assim encontramos com bebês dentro de mochilas nas costas de seus pais, pessoas de idade avançada e até pessoas com restrição de movimento por seqüelas neurológicas. Mais uma vez, lembramos da reunião sobre qualidade de vida que participamos durante o congresso mundial de fisioterapia na Holanda. De volta, a base da montanha o cansaço aparece, mas orgulhosamente recebemos um diploma de subida e descida do púlpito. Pegamos um barco e ônibus para retornarmos a Stavanger. Um bom banho quente e comida norueguesa com vinho tinto claro, para comemorarmos mais um feito nas montanhas norueguesas.
Stavanger é uma cidade moderna, desde que foi descoberto petróleo nas águas norueguesas no início da década de 70 a cidade se tornou um complexo empresarial com representantes de todo o mundo. Hoje a Noruega é o quarto maior exportador de petróleo do mundo e passou de um país pobre a um dos mais ricos. Mais uma característica norueguesa: com o dinheiro do petróleo a Noruega teve que escolher qual o caminho de desenvolvimento iria seguir o mesmo dos países árabes com cidades riquíssimas cheias de luxo ou outro desenvolvimento diferente? E do modo norueguês escolheram um desenvolvimento alternativo, decidiram utilizar o dinheiro recebido em prol da sua população de forma que todo o país recebesse o mesmo tratamento e assim em absolutamente nenhum ponto da Noruega encontramos uma população isolada do conforto e do desenvolvimento, pode-se chegar a qualquer região mesmo no inverno mais rigoroso graças aos túneis submarinos, balsas e estradas pavimentadas que impedem o isolamento. A cobertura de internet e celular existe em todo o território norueguês, inclusive dentro dos túneis sob o mar a uma profundidade de mais de 200 metros e com comprimentos que podem chegar a uns 8 quilômetros.
Saindo de Stavanger resolvemos ter uma atitude digamos mais radical, fomos em direção a Rogaland, chamada a região das neves eternas, próximo a região de Telemark onde foi inventado o Sky alpino. Lá, conseguimos um helicóptero e sobrevoamos os seus glaciais e suas montanhas cobertas de neve que nunca derretem. E sem dúvida alguma um dos maiores cartões postais que já presenciamos em nossas vidas. Lá de cima é possível entender o amor que a população possui pela natureza, o piloto sobrevoa com cautela os picos para não desencadear avalanches e entre um sorriso e outro de orgulho pelas belezas naturais de seu país dá um sorrisinho malicioso e faz com o helicóptero o chamado rock’nrol, uma espécie de batismo para os iniciantes de vôo, nada mais é do que girar o tal aparelho de um lado a outro ao mesmo tempo em que sobe e desce deixando para trás muitas montanhas russas por aí e fazendo o sangue dos nossos pés subir até a nossa cabeça. Após a aterrissagem uma conferida se todos os órgãos estão no lugar, e mais uma vez pé na estrada de volta a Oslo.
Aproveitamos para verificar como estão nossos equipamentos e chegamos a conclusão que já passamos de 1500 fotos e mais uma série de filmagens.
Chegamos a Oslo numa bonita tarde e com temperatura amena para os padrões noruegueses, uma chuva gelada cai enquanto caminhamos pelo parque da cidade onde lindas esculturas de bronze representam todas as fases da vida. São mais de 30 esculturas diferentes, um verdadeiro museu a céu aberto e mais uma vez meditamos sobre aquelas pessoas ao nosso redor, seus valores e sonhos. Lembramos do nosso país, dos nossos valores e sonhos. Uma comparação instigante que nos faz querer que absolutamente todos deste planeta possam pelo menos experimentar um décimo do que estamos sentindo nesta experiência expedicionária. Um sonho utópico, diriam alguns. Mas para nós, o colorido da vida é o bom combate, o lutar pelo que acreditamos, além de que as grandes transformações no decorrer da história humana sempre começaram com visões consideradas idealistas e utópicas.
Retornando ao hotel, repassamos nossos planos, pois nossa expedição ainda estava longe de terminar. Agora viria o lado mais interessante. A região norte da Noruega, em direção ao pólo norte, entrando na região chamada Lapônia, também conhecida como a terra do Papai Noel.
Vamos para o aeroporto com destino a cidade de Tromso no norte do país e La vai outra característica norueguesa. Chegamos ao aeroporto, hora de fazer o check in eletrônico, porém o terminal de computador também pergunta o número de bagagem que possuímos. Ao final é impresso nosso cartão de embarque junto com a etiqueta de bagagem, etiquetamos nossas malas, em seguida às levamos a uma esteira e nós mesmos despachamos nossas coisas. Uma surpresa ter feito tudo sem interferência de nenhum funcionário, porém a surpresa ainda estava por vir. Entramos na área de embarque, todos sentados e calmos característica local e na hora do embarque no avião, um sinal luminoso avisa que o embarque já está permitido então, levantamos passamos nosso cartão de embarque em uma leitora digital e simplesmente entramos no avião sem absolutamente nenhum funcionário por perto!Absolutamente ninguém tomando conta de ninguém! Coisas de Noruega...
Após um vôo com bastante turbulência chegamos ao norte. A primeira coisa que avistamos é a vegetação bem mais simples e rasteira. De repente, abre-se a porta do avião e a temperatura de absurdos 27 graus invade nossos casacos que imediatamente são retirados e guardados na mala. Somos informados que esta é a temperatura recorde de toda a história da cidade, sinal das mudanças de temperatura no mundo! Como poderíamos imaginar uma temperatura dessas na porta do pólo norte?
Tromso surpreende pela organização da cidade, por ser uma cidade grande para os parâmetros do país, possui uma universidade uma biblioteca gigante e para a alegria de muitos a maior fábrica de cervejas do pólo norte.
Passamos a tarde percorrendo e conhecendo a cidade e seus habitantes e o melhor lugar para isso obviamente é no bar pertencente a fabrica de cervejas onde é possível, degustar umas cervejas retiradas na hora de seus barris e garrafas exclusivas e o preço é o mais em conta da região. Pelo menos é o que nos disseram.
Escolho a cerveja do ártico, leve e encorpada desce suave e sobe como um foguete, o Bruno pergunta qual a mais conhecida e ganha uma caneca cheia de cerveja da casa, não tão leve, mas que sobe mais rápido ainda. Ficamos alegres em minutos, não tanto quanto um grupo de alemães que com toda a certeza já estavam em sua quarta ou quinta caneca.
Saímos do bar e vamos em direção a montanha com vista de toda a cidade onde também se encontram os observatórios para a visualização da aurora boreal no inverno ártico. No dia seguinte, acordamos cedo e vamos em direção a cidade de Alta passando o círculo polar ártico e oficialmente estamos no pólo norte e a temperatura não nos deixa duvidar disso. Nossa primeira parada é no ice bar um bar feito de gelo e lá aproveitamos para passear pelo porto e conhecer um pouco mais da vida dos habitantes polares. Um fato surpreendente foi encontrar vários carros estacionados, abertos e ainda com o motor ligado e sem ninguém por perto, deixam os carros assim para manter o motor aquecido. Saímos de Alta rumo a um pequeno hotel na tundra polar (região de vegetação baixa que só aparece após o derretimento da neve) chamada Permannent Frost uma região que permanece congelada o ano inteiro.
Saímos pela estrada e somos surpreendidos por um grupo de renas pastando. Aproveitamos para ir a uma casa samy também chamada de povo da lapônia, aborígenes do pólo norte. Vivem até hoje da criação de renas e artesanatos feitos de pêlos e ossos de rena, alce, raposas árticas e focas. Decidimos realizar mais uma aventura bem radical, entramos em um barco pelo mar ártico um dos mais perigosos do planeta e vamos em direção às ilhas árticas consideradas santuários naturais de pássaros e animais marinhos que migram todos os anos por estas regiões.
Passamos por quatro ilhas diferentes e apesar do mar não deixar dúvidas de que estamos no oceano glacial ártico e, a temperatura nos mostrar como é estar no pólo norte nos sentimos, como aventureiros da national geographic . Pássaros e mais pássaros de espécies completamente desconhecidas para nós ou apenas vistas pela televisão estavam a pouquíssimos metros e para coroar a aventura uma família de focas brincava nas pedras enquanto nos acompanhava atentamente. Esta região possui oito meses de inverno dos quais durante três meses não se vê a luz do sol. A temperatura pode chegar facilmente a 20 graus negativos e no último inverno chegou a 45 graus abaixo de zero.
Mesmo com todas essas possíveis dificuldades, pelo menos sob as nossas lentes, a população é feliz, os índices de depressão são menores do que a média da população européia e não possuem a menor vontade de deixar a região. Pelo contrario, consideram-se abençoados por estarem na única região do mundo capaz de se observar as auroras boreais no inverno e o sol da meia noite no verão. E é atrás deste sol da meia noite que viemos até o pólo norte.
Continuamos nossa subida ao norte até Honisvag e de lá finalmente chegamos a NorthKaapp (cabo norte) o ponto mais setentrional da Europa .
Chegamos por volta das nove horas da noite e uma neblina densa une-se a uma temperatura polar que não nos deixa enxergar mais do que uns cinco metros em nossa frente. No extremo do cabo norte encontramos um restaurante onde aproveitamos para saciar nossa fome de urso polar, uma capela onde entramos, meditamos e conversamos um pouco sobre toda esta nossa expedição humana e até onde chegamos, em um local que pouquíssimos tiveram o prazer de estar e talvez ninguém tenha vindo para cá com o objetivo de conhecer melhor o Ser Humano e apreciar o que a natureza é capaz de produzir e nós capazes de destruir.
Quando chega às 23 horas e 55 minutos a neblina continua impedindo qualquer visualização possível, quando ocorre o impensável e inexplicável. Um vento polar fortíssimo dissipa por completo a neblina em apenas 2 minutos! Entre o espanto do inacreditável e o espanto do que surge a nossa frente parece que o tempo passa a andar mais devagar... ninguém acredita no que vê, muitos se emocionam enquanto outros começam a fazer uma contagem regressiva para a meia noite e quando a zero hora é alcançada eis que o sol brilha com toda a sua força e esplendor. Mais uma vez o inimaginável, algo que nem os cartões postais se atreveriam tentar mostrar. Estamos realmente no meio do pólo norte e agora que nos damos conta que estamos em pé no cabo norte um topo de um penhasco gigante que forma o fiorde do norte testemunhando que aqui o sol nunca se põe durante o verão, nunca é noite, o sol continua brilhando sem saber que antes dele a lua não esteve presente. A emoção e a sensação são inimagináveis assim como o frio que também se apodera dos nossos ossos.
Caminhamos em silêncio sem saber o que dizer com aquele sol sobre as nossas cabeças. Vamos ao mirante local pedimos duas doses de hidromel uma aguardente que os vikings bebiam, brindamos a jeito viking a nós, a nossa expedição, aos amigos e familiares ausentes , aos Seres Humanos e principalmente à Natureza. Mais um brinde e decidimos voltar no próximo inverno agora para apreciar o outro lado da natureza do pólo norte, para testemunharmos mais um milagre a aurora boreal.
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